Com Remetente

monólogo de uma aceitação

É certo que as pessoas vão modificando-se. No vácuo de mim, despenquei, pois foi necessário abdicar de mim mesma para reconstruir-me. Foram longos caminhos de pedras desfeitas. Restei nua. Ai, a necessidade que eu tinha de doer em alguém, como se eu já estivesse exausta de doer em mim. Viver é assim, construir, investigar novas verdades, adequar novos valores. Mudar. Talvez eu esteja condenada ao desajustamento por sair do meu meio. Se retornar, não conseguirei jamais me readaptar. Se permanecer onde estou, terei de respeitar o movimento natural das coisas e, calma e pacífica, esperar que novas raízes cresçam.

Fechei os olhos ao dormir e, com surpresa, encontrei uma mulher atravessada em minhas pupilas. Ela, desconhecida; mas somente antes do encontro que acontecera no bar. Então, unidas pela mesma cerveja, deixamos que o desconhecimento transmutasse naquela amizade dos que nunca se viram antes. Com a lucidez de estar talvez embriagadas, havíamos nos reconhecido. Os olhos sorriram; os lábios, entreabertos, umedeceram-se. É bem verdade que foram só alguns dias. Nossos encontros são de ternura e nossos desencontros, por enquanto, não pesam. Lúcidas, meras tentativas, mas doces.

É preciso dar cor, forma, nome às coisas, pois desnudas elas apavoram: será? Afirmo, pelo menos, que é preciso testar, apalpar, faz-se necessário avançar e aceitar sua densidade. Dificílimo por sua vastidão, eu sei. Mas não tenho medo de chegar perto demais, porque não pretendo voltar, de qualquer forma.

É necessário encher tudo com palavras, mesmo que seja tudo incompreensão? Talvez. Eu resisto em usar a palavra. Continuo, pois a palavra falada e escrita são minha única chance de compreensão. É fato que já não tenho idade para, dramaticamente, usar palavras como “sempre” ou “nunca”. Aos poucos fui aceitando a continuidade da vida. Já não pratico gestos apelativos e tresloucados. Cotidianamente, continuo, pois já não é tempo de desesperos. Abro meus olhos. Ela, a mulher, continua lá. Ou ao menos a sua imagem mnêmica, em cima de mim, me beijando, me fodendo. Continuo, continuo, pois já não é tempo de desesperos: não vou me afogar, porque a minha sede é clara.

“É tempo de meio silêncio, de boca gelada e suspiro, de palavra indireta, aviso na esquina. Tempo de cinco sentidos num só” – Carlos Drummond de Andrade

 

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